domingo, 27 de fevereiro de 2011

A Paz é fruto da Justiça

Carta Maior/ Colunista: Robson Leite  23/09/2010 
DEBATE ABERTO

O Profeta Isaías disse sete séculos antes de Cristo que “a paz é fruto da justiça”. O erro da humanidade moderna foi manter essa afirmação dentro de um âmbito religioso quando, na verdade, se tratava de uma grande diretriz estratégica que deveria orientar todos os governos do mundo.

 
O mundo capitalista vem colocando, ao longo dos anos, a economia como um elemento intocável. Quase como um deus. Ela chega ao extremo de ser elevada a um patamar inalcançável onde todas as pessoas precisam se submeter aos seus fundamentos e valores. Até a própria política se torna, nesse contexto, submissa e refém dos conceitos e princípios econômicos neoliberais. Quem ousa mudar, politicamente, as diretrizes econômicas e monetárias de um país capitalista moderno? Pode-se até mudar os governos ou algo sutil na condução política dos mesmos, mas os dirigentes das políticas econômicas e os paradigmas advindos de suas gestões nos países capitalistas como os presidentes e diretores dos Bancos Centrais ficam, infelizmente, acima até dos Chefes de Estado e de suas diretrizes e estratégias governamentais.
Durante a crise mundial ocorrida no final de 2008, muitos foram os “socorros econômicos” alguns bilhões de dólares enviados aos bancos e às organizações financeiras “globais” com a desculpa de evitar uma “quebradeira generalizada do modelo econômico mundial vigente”. Segundo a ONU, durante o curto período que vai do final de 2008 ao início do segundo semestre de 2009 os bancos ganharam muito mais dinheiro do que todas as nações pobres do mundo em 50 anos. Um verdadeiro escândalo se olharmos para as metas do milênio que objetivam acabar com a fome e a miséria do mundo e o quanto de recursos financeiros que necessitamos para essa finalidade. Será que esse é o caminho de justiça e solidariedade que queremos deixar para as próximas gerações do nosso planeta?

Há muitos países no mundo onde crianças morrem pela falta de saneamento básico e outros onde as pessoas precisam viajar mais de 200 km para ter acesso a hospitais e médicos. Também existem países no mundo inclusive no dito “primeiro mundo” onde quem não tem dinheiro para pagar assistência médica de saúde simplesmente morre sem atendimento. Segundo as palavras dos seus próprios governantes, “é a lei do mercado”. Nesses lugares, a economia está, de maneira triste e lamentável, hierarquicamente acima da política e, conseqüentemente, da vida.
A economia dessas regiões baseia-se no fortalecimento dos interesses individuais e de uma falsa ética utilitária. O interesse individual, nesse contexto, constitui-se como elemento fundamental, pois sustenta o consumo e destrói todo e qualquer mecanismo que possa atrapalhar ou impedir a lógica do mercado. Sindicatos e associações de empregados, nessa ótica infeliz e cruel, são desarticulados e desmotivados a se organizar. Qual o empregado que, preocupado com sua “carreira do mundo capitalista”, se sujeitaria a participar ativamente de um sindicato ou associação de funcionários? A ética utilitária também é outra forma de sustentar e fortalecer esse modelo, pois o “direito de consumir” se confunde equivocadamente e propositalmente como “algo essencial à vida” nesse tipo de sociedade. Esse conceito fortalece, e muito, a estrutura consumista que destrói e mata pessoas em todo o mundo. Quem nunca foi tentado a comprar o que não precisa, muitas vezes com o dinheiro que não tem? O ter, nesse aspecto, se sobrepõe ao “ser-humano”, pois o consumismo desenfreado beneficia apenas alguns poucos gerando concentração de renda, pobreza e miséria.
Precisamos também lembrar que a pobreza não é uma fatalidade ou um fruto do acaso. Ela é conseqüência deste modelo perverso que visa concentrar a renda e os bens nas mãos de poucos e que busca, incansavelmente, impedir a conscientização da grande maioria das pessoas que normalmente ficam com a menor parte das riquezas produzidas nesses países sobre os seus males e as formas de combate-la. É por isso que a Educação e os investimentos no fortalecimento das redes sociais de proteção aos pobres, por exemplo, não tem prioridade nos orçamentos públicos dos países ditos “capitalistas modernos”. A prioridade será sempre, segundo os princípios do “capitalismo neoliberal”, o pagamento dos juros das dívidas públicas através dos perversos superávits fiscais primários.
O Profeta Isaías disse sete séculos antes de Cristo que “a paz é fruto da justiça”. O erro da humanidade moderna foi manter essa afirmação dentro de um âmbito religioso quando, na verdade, se tratava de uma grande diretriz estratégica que deveria orientar todos os governos do mundo. Não há construção de uma paz verdadeira sem que ela seja edificada nos pilares da justiça. E essa justiça precisa encontrar referência em uma política econômica a serviço da dignidade da pessoa humana através da partilha e da solidariedade.
Precisamos fortalecer, cada vez mais, os movimentos que busquem a coletivização dos sonhos, como os sindicatos, as associações, os movimentos de bairros e os movimentos sociais. Há grupos, inclusive, que vivem uma nova experiência econômica baseada na produção de cooperativas auto-gestionadas onde todos partilham igualmente as riquezas produzidas sem a figura do “dono” ou do “patrão que fica com a maior parte”. São os grupos de “economia solidária”. Neles, a política jamais se submeterá à economia, pois ela a economia é meio de promoção da dignidade humana e não um “fim em si mesma”. Por isso que esses grupos de economia solidária precisam ser valorizados e respeitados principalmente no que tange as políticas públicas que priorizem as relações econômicas e sociais entre eles.
Esse é o desafio que temos. Está na hora de caminharmos rumo a um novo mundo possível. As pistas para as ações são essas que acabamos de refletir. Precisamos, sobretudo, de coragem para encarar esse novo e importante desafio. Dessa forma conseguiremos, finalmente, vislumbrar um novo horizonte de justiça e solidariedade para um novo tempo e uma nova história em nossa sociedade.
Data: 20/09/2010
Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4787&boletim_id=765&componente_id=12721

Notícia na Gazeta do Povo sobre Regularização Fundiária no Litoral Paranaense

Falta de gestão do território contribuiu para o problema


A regularização fundiária não é uma dor de cabeça apenas para os gestores
públicos no litoral. O problema é nacional e começou quando as primeiras
cidades foram formadas com o início da colonização. Porém, a região
litorânea tem alguns agravantes, apontados por especialistas: falta de
gestão do território, questões ambientais, problemas políticos e
judiciais, além do custo envolvido para expedir títulos de posse.

O Litoral do Paraná tem algumas características próprias, segundo o
coordenador do curso de Gestão Técnica do Meio Urbano (GTU) e de
Arquitetura da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR),
Carlos Hardt. Ele salienta que a questão fundiária na região começou a
ser discutida a partir da década de 50, aproximadamente, quando começou a
aparecer na região o mercado imobiliário voltado ao turismo. Até então,
a população predominante era de pescadores e a regularidade da ocupação
não era uma preocupação das prefeituras. Isso mudou com as construtoras
e particulares interessados em adquirir um terreno. “O veranista
demandava lotes”, comenta.

Saiba mais
4 em 10 moradores do litoral são posseiros

Além disso, houve ainda os casos clássicos de golpes
envolvendo a venda de terrenos. “Em Guaratuba, por exemplo, um lote foi
vendido três ou quatro vezes. E isso só pode ser má-fé”, comenta Hardt.

Para o urbanista do Instituto Polis, Kazuo Nakano, os dados de
problemas fundiários do litoral do Paraná não diferem muito do restante
do país, apesar de o índice ser muito maior do que o resultado da Pnad
de 2007. “Em São Paulo, até 40% das pessoas vivem em áreas irregulares.
No Norte e Nordeste, é daí para cima”. O urbanista acredita ainda que a
resolução do problema é complicada e cara. Nakano aponta ainda
resistência do Judiciário e questões ambientais como empecilhos para
regularização. “Os juízes são resistentes em acatar os mecanismos
jurídicos para dar posse de áreas irregulares.”

Estadual

Além das prefeituras, quem também tenta resolver problemas pontuais
de questão fundiária é o governo do Paraná. O problema é a estrutura em
relação ao tamanho do trabalho. Atualmen­te, um único servidor é
responsável pelo Instituto de Terras, Cartografia e Geociência (ITCG) e
trabalha em uma pequena sala na garagem do prédio do Instituto Ambiental
do Paraná (IAP), em Morretes. O órgão havia sido desativado no fim da
década de 70, com as funções integradas ao IAP, e, em 2005, foi
recriado.

O funcionário do ITCG no litoral, Constantino Stopinski Filho, conta
que hoje trabalha com a regularização de algumas áreas, que pertencem ao
governo estadual, mas são ocupadas por particulares. Ele admite a
dificuldade em ter um diagnóstico preciso do problema fundiário na
região, quanto mais resolvê-lo. “Os dados estão completamente
defasados”.

O diretor de Terras do ITCG, Albari Lejambre, reforça a dificuldade
técnica de saber, por exemplo, a quem pertence uma área. “É tudo meio
confuso”. Eles estima que, se a análise da questão fundiária no Paraná
levar em conta todo o território, até 80% podem ter problema de posse.
Para ele, uma das dificuldades é o custo de registro em cartório, que é
de cerca de R$ 3 mil. “Pre­cisaríamos de um trabalho conjunto do
Judiciário, de cartórios e dos governos, principalmente o federal, para
regularizar as posses”.

Fonte:

http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=930369&tit=Falta-de-gestao-do-territorio-contribuiu-para-o-problema

Agroecologia em Rede

Agroecologia em Rede


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www.agroecologiaemrede.org.br
Mapa das iniciativas de ensino, pesquisa e extensão em Agroecologia.

Indicação de Leitura – AS TRES ECOLOGIAS (Félix Guattari)

“O que está em questão é a maneira de viver daqui em diante sobre o planeta, no contexto da aceleração das mutações técnico-científicas e do considerável crescimento demográfico.
Em virtude do contínuo desenvolvimento do trabalho maquínico, redobrado pela revolução da informática, as forças produtivas vão tornar disponível uma quantidade cada vez maior do tempo de atividade humana potencial. Mas com que finalidade? A do desemprego, da marginalidade opressiva, da solidão, da ociosidade, da angústia, da neurose, ou a da cultura, da criação, da pesquisa, da reinvenção do meio ambiente, do enriquecimento dos modos de vida e de sensibilidade?”

Brasil e o letramento: em busca do tempo perdido

Nícia Ribas, Plurale em Revista
Fonte: http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/letramento-em-busca-do-tempo-perdido/
Muito se fala na importância da educação para o desenvolvimento de uma nação, mas pouco se tem feito por ela. Embora venha diminuindo o número de analfabetos brasileiros – atualmente são 14 milhões, o que significa 10% da população com mais de 15 anos – vai ser difícil cumprir a meta estabelecida durante a Conferência Mundial de Educação, em Dacar (Senegal), no ano 2000. Com outros 128 países, o Brasil assinou um pacto para melhorar a qualidade do ensino e, entre as metas estabelecidas, está reduzir pela metade a taxa de analfabetismo até 2015, chegando ao percentual de 6,7%. Conseguirá?
A principal estratégia do Ministério da Educação para atingir a meta é o programa Brasil Alfabetizado, que dá apoio técnico e financeiro para que municípios e estados criem turmas de jovens e adultos. No entanto, além disso, o Brasil enfrenta outro grande desafio: o chamado analfabetismo funcional, que atinge 25% da população com mais de 15 anos, de acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE.
O indivíduo com menos de quatro anos de estudos completos é considerado um analfabeto funcional quando lê e escreve frases simples, mas não é capaz de interpretar textos e colocar ideias no papel. Mal lendo e escrevendo e fazendo apenas contas básicas, ele enfrenta dificuldades no seu dia-a-dia, principalmente na hora de entrar para o mercado de trabalho.
Como disse o presidente da ONG Ação Educativa, Sérgio Haddad, à Agência Brasil, “o analfabetismo funcional é um fenômeno novo que se deve, principalmente, à baixa qualidade do ensino público.” Na avaliação dele, é preciso eliminar o mal com a educação de qualidade para que crianças e jovens saiam da escola com domínio pleno da leitura e da escrita.
Essa incapacidade de dominar os textos, reflexo do mau funcionamento do sistema de ensino, é um problema que vem sendo bastante discutido pelos educadores em todo o mundo. E a solução pode ser o letramento. Paulo Freire, no Brasil; Jean Foucambert e Célestin Freinet, na França, lançaram as bases da formação pedagógica necessária para mudar o ensino da leitura. Para eles, o ato da leitura é um ato político e uma prática social.
No Paraná, foco no Letramento
O Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Federal do Paraná já agendou para 27, 28 e 29 de outubro sua Ação Integrada para o Letramento 2010, encontro que realiza há três anos, com a finalidade de disseminar esse modo de ler. O pedagogo francês, Jean Foucambert, autor de diversos livros sobre leitura, estará presente, pela segunda vez, ao encontro paranaense. A edição de junho da revista Les Actes de Lecture (www.lecture.org), da AFL- Associação Francesa para Leitura, de Paris, destaca o trabalho desenvolvido pela equipe do Departamento de Letras da UFPR.
Para a professora Lúcia Cherem, formada em Letras, com doutorado em literatura e professora de francês, coordenadora do Projeto de Pesquisa de Iniciação Científica, que trabalha com o letramento, “o ensino da leitura, voltado para a realidade do nosso cotidiano, poderá ser o salto que a educação brasileira, apoiada por outros setores da sociedade, tanto precisa dar.” Ela e sua equipe acreditam numa promoção social coletiva no momento em que todos os alunos das escolas públicas e privadas tiverem acesso à leitura e á escrita.
Paralelamente ao trabalho de pesquisa, eles oferecem cursos de extensão universitária para professores de línguas estrangeiras e materna das redes de ensino básico e médio municipal e estadual. Ao todo são 100 professores alfabetizadores e 70 chefes regionais das escolas estaduais a cada ano. A pedagoga Nara Salamunes, Diretora do Departamento de Ensino Fundamental da Secretaria de Educação Municipal de Curitiba, que desde 2005 trabalha com foco na atualização continuada dos professores da escola básica, garante: “No convívio constante com os professores, já percebemos sua satisfação e compromisso crescente com os resultados desse trabalho.”
Leitura para todos
O fato de Curitiba ser a capital com maior número de bibliotecas por habitante no país (2,9), não é suficiente para garantir a formação de leitores: “É preciso promover ações que tornem as bibliotecas lugares atrativos e de ação, com bons agentes de leitura e com contadores de história. A literatura é importante, mas é preciso também oferecer jornais e revistas, com visões críticas da sociedade. E também livros sobre vários temas, como trabalho, problemas de gênero, imprensa, questões sociais próximas dos leitores”, diz Lúcia.
Para a equipe da UFPR, a questão social está diretamente relacionada ao domínio da leitura. “Nossa sociedade se divide entre letrados e iletrados. É claro que os letrados detêm o poder e ditam as regras. Há letrados conscientes desse problema e há outros que se veem privilegiados nessa posição e acham normal que isso continue assim. No entanto, todos têm que ter acesso ao mundo da escrita, seja para ler, para escrever, posicionado-se, ou para organizar sua vida por escrito. A leitura e a escrita são extremamente importantes no tipo de sociedade em que vivemos. Experimente ir a um supermercado com lista e sem lista de compras. Você vai sentir a diferença nessa coisa básica. Imagine para o entendimento melhor da sociedade, para entender o seu lugar nela e para poder votar de forma mais consciente. E também para a estruturação da própria personalidade, por ser uma forma de autoconhecimento. Ler e escrever podem ajudar em muitas coisas, estão cada vez mais presentes em qualquer atividade humana”, diz a professora.
No Brasil, a questão da educação com qualidade depende de vontade política. “É claro que tem que passar pela escola, como já acontece em muitas delas através do trabalho excelente de alguns professores, mas não pode ficar apenas dentro da escola. Podemos colocar as crianças em contato com livros, sem pedir a elas que façam ficha de leitura e trabalho escolar. Elas precisam entrar nos livros, se envolver com eles. Contar sobre suas leituras a seus amigos e colegas, dividir suas experiências como numa rede, assim como fazem quando falam dos vídeo games, dos jogos que conhecem e que querem compartilhar. Isso contagia. Ler é contagiante”, afirma.
Nas bem sucedidas práticas de leitura que já vêm acontecendo no Brasil, os alunos são levados a ler em conjunto, com setores que aproveitam essa experiência. Discutem, por exemplo, a presença e a imagem dos velhos nos livros infantis, os estereótipos, leem com os velhos em asilos; há escolas que já promovem esse tipo de coisa, preparando com as crianças um material a ser lido com futuras mães, por exemplo, em postos de saúde, sobre amamentação, contracepção, etc…”A leitura deixa de ser uma tarefa apenas escolar, um martírio, para ter uma função social; a literatura também provoca prazer, alegria em se descobrir um jeito novo de lidar com a linguagem, como na linguagem poética. Há muita coisa a ser descoberta quando se domina o mundo da escrita.” garante a professora Lúcia Cherem.
No Rio, a Cátedra Unesco
Instalados numa casa branca dentro do campus da PUC-Rio, uma equipe de estudiosos prepara material para abastecer professores, pais, agentes culturais, agentes de saúde e demais adultos responsáveis pela formação de pessoas em todo o Brasil. Trata-se de um projeto coletivo desenvolvido pela Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio, sob a coordenação da professora Eliana Yunes: “Grupos de pesquisa formados por alunos, ex-alunos, mestrandos e doutorandos da Universidade, além de outros especialistas, desenvolvem programas de formação do leitor, que estão sendo colocados em prática pelo país a fora, com parcerias e articulações entre outros compromissados”, explica ela.
Desde quando descobriu que ler não é apenas a decodificação do texto gráfico, a professora, formada em Letras, com Pós Doc na Alemanha, vem disseminando esse novo conceito da leitura, que para ela, é transversal em tudo na vida humana: “Tudo é legível, não apenas a literatura; mas também uma exposição de arte, um espetáculo teatral, um filme, um acontecimento político.” Para Eliana, leitura não se limita a uma atividade intelectual e não pode ser dissociada dos sentimentos e afetos. E vai além: “ler mobiliza mais que a cognição e a sensibilidade, ler mobiliza a intimidade, a subjetividade de cada um”.
Quando assumiu a diretoria da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, em 1985, ela pode sentir o encantamento que a leitura exercia sobre as crianças até a 3ª. e 4ª. séries: “Elas se envolviam com as histórias, era um aprendizado que mexia com emoções e com a inteligência, permitindo que tirassem lições de vida; mas da 5ª série em diante, o trato da literatura nas escolas deixava de ser a hora para conhecer a própria vida, passando a ser aula de informações críticas, com práticas construtivas, notas, avaliações sob um ponto de vista fechado, ditado pelo livro do professor”, lembra.
Como professora universitária, Eliana percebeu que os alunos não sabiam, de fato, ler: “Eles liam Graciliano Ramos, por exemplo, interessados apenas na crítica acadêmica construída, sem buscar sentir o ponto de vista dos personagens e sem entender o seu próprio, que é o verdadeiro aprendizado”. Ela constatou o grande abismo existente entre leitura e vida. Aqueles jovens, já cursando universidade, não tinham aprendido a ler; apenas acumulavam informações intelectuais desconectadas de sua realidade. Consequentemente, o sujeito que ia ensinar a experiência humana, nos 1º e 2º Graus, não tinha afinidade com a prática de leitor efetivo, que percebe a vida, os sentimentos, através da leitura.
Diante da constatação, a professora concluiu que era necessário, com urgência, operar uma mudança pedagógica, teórica e política: “Precisávamos de uma Política Pública de Leitura, que também oferecesse novos rumos pedagógicos, capazes de afetar a educação e a cultura como um todo.” Desde o início da década de 90, Eliana dedica-se em tempo integral ao estudo da leitura, da formação do leitor, e dos modos de transmitir essa prática de forma sedutora. Ela mantém um grupo de jovens pesquisadores, construindo um saber sobre o tema.
E nasceu o Proler
Depois de uma série de estudos no exterior, em 1991 Eliana integrou temporariamente a equipe da Biblioteca Nacional, onde Affonso Romano de Sant`Anna, então diretor, acabara de criar uma área de leitura. Foi nessa época que participou da criação do Proler – Programa Nacional de Incentivo à Leitura. Em carta para os então quase cinco mil municípios brasileiros, a equipe do Proler perguntou se gostariam de participar de uma experiência inovadora de estímulo à leitura. Setenta e dois responderam, interessados. A estes foram enviados questionários para conhecer os equipamentos e os recursos de que dispunham. Vinte e um preencheram as respostas e estes receberam a visita da equipe do Proler, que organizou encontros de sensibilização com a finalidade de mostrar que “a leitura tem que mexer com os nervos, o coração, a inteligência.”
Paralelamente à experiência do Proler,foi sendo construída uma pedagogia da leitura. Em cinco anos, a equipe visitou 600 municípios, formando agentes locais, que passaram a coordenar os encontros. “Hoje o Proler tomou outro jeito, mas continua existindo, apesar da falta de desdobramentos nos governos seguintes”, diz Eliana, que não acredita em fórmulas, receitas prontas, mas sim em prática, vivência, experiência, que resultam em políticas locais com força mobilizadora da sociedade dentro e fora da escola.
Principais projetos da Cátedra
Valeu a pena ter desistido de outras casas universitárias, onde era professora concursada, para atender ao convite da PUC-Rio para trabalhar em tempo integral com o ensino da leitura. “Agora temos aqui na Cátedra um projeto coletivo com base acadêmica na prática política que estuda pilotos de programas para serem colocados em prática, testados país a fora.
“Trabalhamos com a formação dos adultos, pois eles são os mediadores para as novas gerações”, diz ela, relacionando alguns projetos em andamento:
> Com o Ministério da Cultura promove o Programa Nacional de Formação de Agentes de Leitura, dirigido a jovens de 18 a 28 anos. A Cátedra forma os supervisores, os multiplicadores e prepara o material pedagógico;
> Digitalização de Banco de Dados sobre Leitura, uma biblioteca Temática, em português e espanhol que estará disponível no site www.catedra.puc-rio.br, com apoio do MEC.
> Análise de texto e imagem de uma seleção de seu acervo de 19 mil livros de literatura infantil, para criar a primeira biblioteca digital de LIJ no Brasil.
> Para o Ministério da Educação analisa o Prêmio Viva Leitura, que já reuniu 10 mil projetos de leitura no País. Faz mapeamento da leitura no Brasil: quem faz o que, onde e como, com que recursos. Resultados estarão disponíveis para todos.
> Fórum e chats na Internet para as comunidades inscritas e organizadas enquanto rede de pesquisadores e promotores de leitura.
A equipe da Cátedra Unesco PUC-Rio de Leitura oferece seu assessoramento para um novo modo de ler e, consequentemente, de pensar, refletir sobre si mesmo e a vida. “O que a Cátedra busca é registrar o conhecimento que se produz mundo a fora por equipes diversas, além da nossa, que se constituem parceiras deste trabalho no qual se busca fomentar uma autonomia possível de mediadores e gestores em um programa permanente de incentivo à leitura, como hoje preconiza o PNLL – Plano Nacional do Livro, da Leitura e da Literatura. Para nós não interessa a cereja sobre o chantilly do bolo; o que nos interessa é o fermento na massa,” diz Eliana Yunes.




Edgar Morin – O arquiteto da complexidade

 


Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/arquiteto-complexidade-423130.shtml
Edição Especial | 10/2008

Sociólogo francês propõe a religação dos saberes com novas concepções sobre o conhecimento e a educação
Márcio Ferrari (novaescola@atleitor.com.br)








Foto: Edison Vara
Mudanças profundas ocorreram em escala mundial nas últimas décadas do século 20, entre elas o avanço da tecnologia de informação, a globalização econômica e o fim da polarização ideológica entre capitalismo e comunismo nas relações internacionais. Diante desse cenário, o sociólogo francês Edgar Morin, hoje com 87 anos, percebeu que a maior urgência no campo das idéias não é rever doutrinas e métodos, mas elaborar uma nova concepção do próprio conhecimento. No lugar da especialização, da simplificação e da fragmentação de saberes, Morin propõe o conceito de complexidade.
Ela é a idéia-chave de O Método, a obra principal do sociólogo, que se compõe de seis volumes, publicados a partir de 1977. A palavra é tomada em seu sentido etimológico latino, "aquilo que é tecido em conjunto". O pensamento complexo, segundo Morin, tem como fundamento formulações surgidas no campo das ciências exatas e naturais, como as teorias da informação e dos sistemas e a cibernética, que evidenciaram a necessidade de superar as fronteiras entre as disciplinas. "Ele considera a incerteza e as contradições como parte da vida e da condição humana e, ao mesmo tempo, sugere a solidariedade e a ética como caminho para a religação dos seres e dos saberes", diz Izabel Cristina Petraglia, professora do Centro Universitário Nove de Julho, em São Paulo.
Para o pensador, os saberes tradicionais foram submetidos a um processo reducionista que acarretou a perda das noções de multiplicidade e diversidade. A simplificação, de acordo com Morin, está a serviço de uma falsa racionalidade, que passa por cima da desordem e das contradições existentes em todos os fenômenos e nas relações entre eles.
Biografia
Edgar Morin nasceu em 1921 em Paris. Seu nome verdadeiro é Edgar Nahoum. Fez os estudos universitários de História, Geografia e Direito na Sorbonne, onde se aproximou do Partido Comunista, ao qual se filiou m 1941. Teve papel ativo no movimento de resistência à ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Depois do fim da guerra, participou da ocupação da Alemanha. Em 1949, distanciou-se do PC, que o expulsou dois anos depois. Ingressou no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), onde realizou um dos primeiros estudos etnológicos produzidos na França, sobre uma comunidade da região da Bretanha. Criou o Centro de Estudos de Comunicações de Massa e as revistas Arguments e Comunication. Em 1961 rodou o filme Crônica de um Verão em parceria com o documentarista Jean Rouch. Em seguida, fez uma série de viagens à América Latina. Em 1968 começou a lecionar na Universidade de Nanterre. Passou um ano no Instituto Salk de Estudos Biológicos em La Jolla, na Califórnia, onde acompanhou descobertas da genética. Redigiu em 1994, com o semiólogo português Lima de Freitas e o físico romeno Basarab Nicolescu, um manifesto a favor da transdisciplinaridade. Em 1998, promoveu, com o governo francês, jornadas temáticas que originaram o livro A Religação dos Saberes. Em 2002, a Justiça o condenou por difamação racial devido a um artigo no qual dizia que "os judeus, que foram vítimas de uma ordem impiedosa, impõem sua ordem impiedosa aos palestinos". Morin, que é judeu, pagou 1 euro como pena simbólica. Ainda diretor de pesquisas no CNRS, ele é doutor honoris causa em universidades de vários países e presidente da Associação para o Pensamento Complexo.
Pré-história do saber
Acima de tudo, o sociólogo francês defende a introdução da incerteza e da falibilidade na rigidez cultural do Ocidente. As limitações causadas pela compartimentação do conhecimento, de acordo com o educador, são responsáveis por manter o espírito humano em sua pré-história. Além disso, a tendência de aplicar conceitos abstratos vindos das ciências exatas e naturais ao universo humano resulta em desconsideração por aspectos como o ambiente, a história e a psicologia, entre outros. Um exemplo, diz o pensador, é a economia, a mais avançada das ciências sociais em termos matemáticos e a menos capaz de trabalhar com regularidades e previsões.
A Era da Incerteza

Equação da física de partículas, parte da
teoria quântica: novas visões de mundo.
Foto: Ria Novosti/Science Photo Library/
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O início do século 20 foi marcado por duas revoluções científicas: a teoria da relatividade de Albert Einstein (1858-1947) e a mêcanica quântica de Max Planck (1879-1955). Ambas obrigaram a humanidade a rever doutrinas e tiveram aplicações nas mais diversas áreas, da filosofia à indústria bélica. A teoria quântica, por exemplo, derrubou certezas da Física e as substituiu pela noção de probabilidade. A relatividade pôs em questão os conceitos de espaço e tempo. Para completar, na termodinâmica, Niels Bohr (1885-1962) chegou à necessidade de tratar as partículas físicas tanto como corpúsculos quanto como ondas. Quando tudo parecia incerto e relativo, a teoria do caos, já na segunda metade do século, veio, de certa forma, na direção oposta, ao demonstrar que também nos sistemas caóticos existe ordem. Essas e outras reformulações do conhecimento humano levaram Morin a definir sete "princípios-guia" da complexidade, interdependentes e complementares. São eles os princípios sistêmico (o todo é mais do que a soma das partes), hologramático (o todo está em cada parte), do ciclo retroativo (a causa age sobre o efeito e vice-versa), do ciclo recorrente (produtos também originam aquilo que os produz), da auto-eco-organização (o homem se recria em trocas com o ambiente), dialógico (associação de noções contraditórias) e de reintrodução do conhecido em todo conhecimento.
Para recuperar a complexidade da vida nas ciências e nas atividades humanas, Morin recomenda um pensamento crítico sobre o próprio pensar e seus métodos, o que implica sempre voltar ao começo. Não se trata de círculo vicioso, mas de um procedimento em espiral, que amplia o conhecimento a cada retorno e, assim, se coaduna com o fato de o homem ser sempre incompleto – o aprendizado é para toda a vida. "A reforma do pensamento pressupõe a consciência de si e do mundo", diz Izabel Cristina. "Ela decorre da reforma das instituições e vice-versa."
Nos processos em espiral, é necessário conhecer os conceitos de ordem, desordem e organização. Do ponto de vista da complexidade, ordem e desordem convivem nos sistemas. O que diferencia o todo da soma das partes é o que Morin denomina comportamento emergente. Nos seres humanos, a dinâmica entre ordem e desordem se subordina à idéia de auto-eco-organização: a transformação extrapola o indivíduo, se estendendo ao ambiente circundante. Uma vez que tudo está interligado, a solidariedade é tida pelo sociólogo como peça fundamental para superar aquilo que denomina crise planetária – uma situação de impotência diante de incertezas que se acumulam.
Ouvir os jovens
Não há espaço em que a fragmentação do conhecimento esteja tão explícita quanto na escola, com sua estrutura tradicional de parcelamento do tempo em função de disciplinas estanques. Por outro lado, a diversidade de sujeitos e objetos em busca de conexões fazem da sala de aula um fenômeno complexo, ideal para iniciar o processo de mudança de mentalidades defendida por Morin. A meta é a transdisciplinaridade. "Só convencido de que tudo se liga a tudo e de que é urgente aprender a aprender, o educador adquirirá uma nova postura diante da realidade, necessária para uma prática pedagógica libertadora", observa Izabel Cristina. 
Sete Saberes Indispensáveis

Tecnologia na escola: tópico para lidar com
a fartura de informações.
Foto: JupiterImages/AFP
Em sua defesa da religação dos saberes, Morin tocou numa inquietação disseminada nos dias atuais, quando a tecnologia permite um acesso inédito às informações. Por isso a Organização das Nações Unidas pediu a ele uma relação dos temas que não poderiam faltar para formar o cidadão do século 21. Assim nasceu o texto Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. A lista começa com o estudo do próprio conhecimento. O segundo ponto é a pertinência dos conteúdos, para que levem a "apreender problemas globais e fundamentais". Em seguida vem o estudo da condição humana, entendida como unidade complexa da natureza dos indivíduos. Ensinar a identidade terrena é o quarto ponto e refere-se a abordar as relações humanas de um ponto de vista global. O tópico seguinte é enfrentar as incertezas com base nos aportes recentes das ciências. O aprendizado da compreensão, sexto item, pede uma reforma de mentalidades para superar males como o racismo. Finalmente, uma ética global, baseada na consciência do ser humano como indivíduo e parte da sociedade e da espécie.
Contra a idéia arraigada de que a decomposição do conhecimento responde à suposta limitação intelectual das crianças, o pensador afirma que elas têm as mesmas inquietações dos adultos. Ouvir os alunos, naturalmente sintonizados com o presente, é a melhor maneira de o professor investir na própria formação. Esse também é o caminho para construir um programa de ensino focado no próprio estudante e suas referências culturais, porque as grandes metas da educação deveriam ser o desenvolvimento da compreensão e da condição humana. Segundo Morin, o profissional mais preparado para operar essa mudança de enfoque é o professor generalista dos primeiros anos do Ensino Fundamental, por ter uma visão ampla do processo.
Para pensar
Na opinião de Edgar Morin, cabe aos professores do Ensino Fundamental começar a derrubar as barreiras entre os conhecimentos, por duas razões principais: eles têm a experiência generalista (pelo menos os que trabalham nas séries iniciais) e lidam com as crianças mais novas, que guardam uma curiosidade e um modo de pensar ainda não influenciados pela separação dos conteúdos em disciplinas. Você, como professor, se dá a liberdade de preparar aulas sem necessariamente parcelar o horário em períodos estanques?
Quer saber mais?
A Cabeça Bem-Feita, Edgar Morin, 128 págs., Bertrand Brasil, tel. (21) 2585-2000 end_of_the_skype_highlighting, 25 reais
A Religação dos Saberes, Edgar Morin, 588 págs., Ed. Bertrand Brasil, tel. (21) 2585-2000 end_of_the_skype_highlighting, 69 reais
Edgar Morin – A Educação e a Complexidade do Ser e do Saber, Izabel Cristina Petraglia, 120 págs., Ed. Vozes, tel. (24) 2246-5552 end_of_the_skype_highlighting, 20 reais
Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, Edgar Morin, 118 págs., Ed. Cortez, 22 reais

Prêmio Nobel: Foi quase – César Lattes

A última entrevista de César Lattes, o mais importante físico da história do país e cientista brasileiro que mais perto chegou do Prêmio Nobel

por Daniel Azevedo – Revista Superinteressante (04/2005)

No dia 24 de maio de 1947, o mundo foi informado de que, ao contrário do que aprendemos na escola, a composição do átomo não se resume a nêutrons, prótons e elétrons. A prestigiada revista Nature anunciou a descoberta e a comprovação da existência da partícula subatômica méson pi, responsável pela ligação das partículas nucleares, e sem a qual tudo o que chamamos de matéria não poderia existir. Por trás da pesquisa, decisiva para a exploração do átomo e favorita ao Nobel de Física desde o momento em que foi divulgada, estava o brasileiro César Lattes. Ele tinha 22 anos.
O prêmio não veio. E menos de um ano após descobrir o méson pi, Lattes chacoalhou a ciência novamente ao reproduzi-lo artificialmente. Dessa vez o experimento levou o Nobel, mas quem ficou com a honraria foi o americano Cecil Powell, que era chefe do brasileiro e não tinha participado diretamente das pesquisas. Ninguém entendeu. “Deixa isso pra lá, prêmios grandiosos não ajudam a ciência”, dizia.
Desde a morte da esposa, há dois anos, Lattes saía pouco de sua casa em Campinas, interior de São Paulo. Foi lá que recebeu o repórter Daniel Azevedo, colaborador de um jornal científico de São Carlos, para aquela que seria sua última entrevista, no final de fevereiro. O físico morreu de parada cardíaca no dia 8 de março, aos 80 anos.
Sem exagero, os obituários o descreveram como o mais importante físicobrasileiro de todos os tempos. Além da descoberta e criação artificial do méson pi, ele ajudou a criar o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF ) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O merecido Nobel acabou vindo postumamente, na forma de um erro de imprensa: ao anunciar a morte de Lattes, a agência de notícias Associated Press (AP) o descreveu como “físico ganhador de um Prêmio Nobel.”
Você faz críticas seguidas a algumas das mais respeitadas teorias da física. Em especial, ao surgimento do Universo a partir de uma explosão, o big-bang. Como o Universo pode ter surgido sem um ponto inicial?
Ele pode ter tido vários núcleos iniciais. Por que não? Acredito em um Universo indefinido, que é diferente de iniciado ou infinito. Qualquer teoria que tente explicar a origem do Universo é bobagem. O big-bang é a teoria de um traque, uma charlatanice. Na verdade, nem mesmo é uma teoria. É apenas uma hipótese. Perguntam para mim: então, de onde surgiu a matéria? A resposta é: não sabemos. O que existe de real são apenas dados experimentais. As pessoas afirmam coisas sobre as quais não se pode fazer experiências para comprovar.
Albert Einstein também recebeu críticas suas. Quais foram os erros dele?
A teoria da relatividade começou a ser concebida por volta de 1880 por umfísico francês chamado Jules Poincaré. Depois, Einstein fez uma teoria da gravitação fajuta, que chamou de relatividade geral, algo que não existe. Einstein, na verdade, é um plagiador. Este ano completamos 100 anos da divulgação da teoria da relatividade e até hoje ninguém o desmascarou.
Quem, então, é o mais importante físico moderno?
São dois: Niels Bohr e Ernst Rutherford. Eles são dois monstros. O Rutherford, que descobriu a existência do núcleo atômico [em 1911], era mais pé-no- chão. O Bohr [teórico da estrutura e dos espectros atômicos, ganhador do Nobel de Física em 1922], mais visionário: morreu tentando convencer os americanos a não fazerem a bomba atômica.
Como você avalia a importância da descoberta do méson pi?
Por volta de 1946, eu estava com a idéia fixa de que havia partículas intermediárias que garantiam a ligação entre prótons e nêutrons. Na verdade, já se sabia que seria impossível existir matéria sem essas partículas, sem elas não haveria ligação no núcleo atômico. Demonstrar a existência do méson pi foi útil para entendermos como uma forma de energia se transforma em outra. Mas a importância é antes de tudo teórica, não diria que ela abriu perspectivas na física aplicada. Até hoje não existe uma máquina que funcione graças à descoberta. Apenas entendemos que esta partícula está em toda matéria.
E como foi o processo para a descoberta e criação artificial do méson pi?
Foi uma grande aventura. Durante as pesquisas, precisava fazer uma experiência numa cidade com grande altitude. Escolhi Chacaltaya, na Bolívia, para onde voaria com uma companhia aérea inglesa. Logo depois, fui aconselhado a não viajar em aviões ingleses, que ainda enfrentavam problemas mecânicos por culpa da Segunda Guerra, que acabara um ano antes. Troquei a passagem para um avião brasileiro, da Panair. Quando cheguei, fiquei sabendo que o avião inglês havia se esborrachado no Senegal.
Você tinha 22 anos quando demonstrou a existência do méson pi. Como a notícia de que um jovem descobrira algo tão importante foi recebida?
Entre os cientistas, a recepção foi normal. Na época, outros grupos estavam fazendo pesquisas parecidas, então não foi uma surpresa. Mais forte foi a atenção da imprensa européia e do Brasil. A notícia saiu na primeira página de vários jornais.
Você acha que o fato de ser brasileiro contribuiu para que outro pesquisador ganhasse o Nobel de Física nas pesquisas em que você participou?
Apesar de a comissão julgadora ser formada por ingleses, acredito que não foi minha nacionalidade que pesou na decisão do vencedor. Tanto na descoberta do méson pi, em 1946, como na sua criação artificial, em 1948, tive colaboração do Giuseppe Occhialini. Quem deveria ter ganho era ele. E, em 1950, quem levou o prêmio foi o Cecil Powell, que também participou do trabalho. Mas deixa isso para lá. Esses prêmios grandiosos não ajudam aciência.
Cientistas costumam ter uma relação conturbada com a religião. Como você lida com a fé?
Não tenho ligação com a religião. Tenho em casa algumas bíblias que ganhei. São livros bonitos, mas com os quais eu não tenho qualquer relação. Não sei como religião e ciência se aproximam. Como um Deus onipotente deixa acontecer um maremoto que mata centenas de milhares de pessoas?
O que pode ser feito para avançarmos no conhecimento da física no Brasil?
Acho que está sendo feito o necessário, dentro da possibilidade brasileira. Acho apenas que o ensino da física deveria ter mais experiências. É sempre melhor que o aluno faça o próprio equipamento. Hoje, ninguém constrói o próprio equipamento – vai à loja e compra. Isso é ruim porque coisas compradas limitam os resultados.
Qual a contribuição que a física ainda pode dar à vida na Terra?
A física só explica e entende a natureza. Aplicá-la é outra questão. Com afísica fica muito mais fácil obter coisas que no passado eram penosas. Mas existem problemas novos que a física ainda não conseguiu abarcar. E eu não tenho idéia do que poderá ser feito com novos conhecimentos.
A física ainda tem muito a explicar?
Em relação ao que ainda está aí para ser descoberto, falta tudo.
César Lattes
• Gostava muito de música. Entre seus favoritos estavam a cantora lírica Maria Callas, os compositores Vivaldi e Villa-Lobos e a dupla caipira Pena Branca e Xavantinho
• Era apaixonado pela cidade do Rio de Janeiro
• Quando tinha tempo livre, gostava de tirar fotos, seu principal hobby
• Adorava os filmes de suspense do diretor Alfred Hitchcock
• Lia muitos livros, em especial autores clássicos
• Fumou até os últimos dias de vida – inclusive durante esta entrevista
 
Fonte: http://super.abril.com.br/ciencia/premio-nobel-foi-quase-445613.shtml

Redes Comunitárias – Tecnologia Social e Economia Solidária

Reflexão–Kahlil Gibran

Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. Nós a derrubamos e transformamos em papel para registrar o nosso vazio.
Kahlil Gibran

Educação e liberdade: as contribuições de Erich Fromm

 
Erich Fromm  (1900-1980)
Autor da Escola de Frankfurt. Psicanalista. Estudou em Heidelberg.
Obrigado a emigrar para os Estados Unidos em 1934, por ter origens
arianas. Professor em Nova Iorque desde 1962. Um dos principais
representantes do freudo-marxismo, influenciado por Adler. Defende
um humanismo comunitário e uma sociedade sã. Distancia-se
e critica Herbert Marcuse. Defende a planificação humanista contra a
burocracia alienante, insurge-se contra a sociedade tecnotrônica, essa
sociedade completamente mecanizada, submetida à maximização da
produção e ao consumo
e que é dirigida por computadores. Propõe a
instauração de pequenas comunidades que pratiquem o face to face.
Entre os principais livros de Fromm, destacam-se: Ser ou Ter, O medo à
Liberdade, A arte de amar
os quais são referências em nosso grupo de pesquisa em educação e vida sustentável. 

Palavras de Milton Santos!!!

A aula que quer ser uma resposta é algo quase desnecessário. A aula tem que ser um conjunto de perguntas as quais incompletamente o professor formula,
e as quais os ouvintes tomam como um guia tanto para aceitar, como para,
depois de aceitar, discutir e, mesmo, recusar.

(Milton Santos em “O Dinheiro e o Território”)

A CARTA DA TERRA

www.mma.gov.br/estruturas/agenda21/_arquivos/carta_terra.doc

PREÂMBULO
Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações.
Terra, Nosso Lar
A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva com uma comunidade de vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade da vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todas as pessoas. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado.

A Situação Global
Os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, redução dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos eqüitativamente e o fosso entre ricos e pobres está aumentando. A injustiça, a pobreza, a ignorância e os conflitos violentos têm aumentado e são causa de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológico e social. As bases da segurança global estão ameaçadas. Essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis.

Desafios Para o Futuro
A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida. Devemos entender que, quando as necessidades básicas forem atingidas, o desenvolvimento humano será primariamente voltado a ser mais, não a ter mais. Temos o conhecimento e a tecnologia necessários para abastecer a todos e reduzir nossos impactos ao meio ambiente. O surgimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir um mundo democrático e humano.
Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados, e juntos podemos forjar soluções includentes.
Responsabilidade Universal
Para realizar estas aspirações, devemos decidir viver com um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com toda a comunidade terrestre bem como com nossa comunidade local. Somos, ao mesmo tempo, cidadãos de nações diferentes e de um mundo no qual a dimensão local e global estão ligadas. Cada um compartilha da responsabilidade pelo presente e pelo futuro, pelo bem-estar da família humana e de todo o mundo dos seres vivos. O espírito de solidariedade humana e de parentesco com toda a vida é fortalecido quando vivemos com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo dom da vida, e com humildade considerando em relação ao lugar que ocupa o ser humano na natureza.
Necessitamos com urgência de uma visão compartilhada de valores básicos para proporcionar um fundamento ético à comunidade mundial emergente. Portanto, juntos na esperança, afirmamos os seguintes princípios, todos interdependentes, visando um modo de vida sustentável como critério comum, através dos quais a conduta de todos os indivíduos, organizações, empresas, governos, e instituições transnacionais será guiada e avaliada.

PRINCÍPIOS

I. RESPEITAR E CUIDAR DA COMUNIDADE DA VIDA


1. Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade.
a. Reconhecer que todos os seres são interligados e cada forma de vida tem valor, independentemente de sua utilidade para os seres humanos.
b. Afirmar a fé na dignidade inerente de todos os seres humanos e no potencial intelectual, artístico, ético e espiritual da humanidade.

2. Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor.
a. Aceitar que, com o direito de possuir, administrar e usar os recursos naturais vem o dever de impedir o dano causado ao meio ambiente e de proteger os direitos das pessoas.
b. Assumir que o aumento da liberdade, dos conhecimentos e do poder implica responsabilidade na promoção do bem comum.

3. Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas.
a. Assegurar que as comunidades em todos níveis garantam os direitos humanos e as liberdades fundamentais e proporcionem a cada um a oportunidade de realizar seu pleno potencial.
b. Promover a justiça econômica e social, propiciando a todos a consecução de uma subsistência significativa e segura, que seja ecologicamente responsável.

4. Garantir as dádivas e a beleza da Terra para as atuais e as futuras gerações.
a. Reconhecer que a liberdade de ação de cada geração é condicionada pelas necessidades das gerações futuras.
b. Transmitir às futuras gerações valores, tradições e instituições que apóiem, em longo prazo, a
prosperidade das comunidades humanas e ecológicas da Terra.

Para poder cumprir estes quatro amplos compromissos, é necessário:
II. INTEGRIDADE ECOLÓGICA

5. Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial preocupação pela diversidade biológica e pelos processos naturais que sustentam a vida.
a. Adotar planos e regulamentações de desenvolvimento sustentável em todos os níveis que façam com que a conservação ambiental e a reabilitação sejam parte integral de todas as iniciativas de desenvolvimento.
b. Estabelecer e proteger as reservas com uma natureza viável e da biosfera, incluindo terras selvagens e áreas marinhas, para proteger os sistemas de sustento à vida da Terra, manter a biodiversidade e preservar nossa herança natural.
c. Promover a recuperação de espécies e ecossistemas ameaçadas.
d. Controlar e erradicar organismos não-nativos ou modificados geneticamente que causem dano às espécies nativas, ao meio ambiente, e prevenir a introdução desses organismos daninhos.
e. Manejar o uso de recursos renováveis como água, solo, produtos florestais e vida marinha de forma que não excedam as taxas de regeneração e que protejam a sanidade dos ecossistemas.
f. Manejar a extração e o uso de recursos não-renováveis, como minerais e combustíveis fósseis de forma que diminuam a exaustão e não causem dano ambiental grave.

6. Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução.
a. Orientar ações para evitar a possibilidade de sérios ou irreversíveis danos ambientais mesmo quando a informação científica for incompleta ou não conclusiva.
b. Impor o ônus da prova àqueles que afirmarem que a atividade proposta não causará dano significativo e fazer com que os grupos sejam responsabilizados pelo dano ambiental.
c. Garantir que a decisão a ser tomada se oriente pelas conseqüências humanas globais, cumulativas, de longo prazo, indiretas e de longo alcance.
d. Impedir a poluição de qualquer parte do meio ambiente e não permitir o aumento de substâncias radioativas, tóxicas ou outras substâncias perigosas.
e. Evitar que atividades militares causem dano ao meio ambiente.

7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário.
a. Reduzir, reutilizar e reciclar materiais usados nos sistemas de produção e consumo e garantir que os resíduos possam ser assimilados pelos sistemas ecológicos.
b. Atuar com restrição e eficiência no uso de energia e recorrer cada vez mais aos recursos energéticos renováveis, como a energia solar e do vento.
c. Promover o desenvolvimento, a adoção e a transferência eqüitativa de tecnologias ambientais saudáveis.
d. Incluir totalmente os custos ambientais e sociais de bens e serviços no preço de venda e habilitar os consumidores a identificar produtos que satisfaçam as mais altas normas sociais e ambientais.
e. Garantir acesso universal à assistência de saúde que fomente a saúde reprodutiva e a reprodução responsável.
f. Adotar estilos de vida que acentuem a qualidade de vida e subsistência material num mundo finito.

8. Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover a troca aberta e a ampla aplicação do conhecimento adquirido.
a. Apoiar a cooperação científica e técnica internacional relacionada a sustentabilidade, com especial atenção às necessidades das nações em desenvolvimento.
b. Reconhecer e preservar os conhecimentos tradicionais e a sabedoria espiritual em todas as culturas que contribuam para a proteção ambiental e o bem-estar humano.
c. Garantir que informações de vital importância para a saúde humana e para a proteção ambiental, incluindo informação genética, estejam disponíveis ao domínio público.

III. JUSTIÇA SOCIAL E ECONÔMICA


9. Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental.
a. Garantir o direito à água potável, ao ar puro, à segurança alimentar, aos solos não-contaminados, ao abrigo e saneamento seguro, distribuindo os recursos nacionais e internacionais requeridos.
b. Prover cada ser humano de educação e recursos para assegurar uma subsistência sustentável, e proporcionar seguro social e segurança coletiva a todos aqueles que não são capazes de manter-se por conta própria.
c. Reconhecer os ignorados, proteger os vulneráveis, servir àqueles que sofrem, e permitir-lhes
desenvolver suas capacidades e alcançar suas aspirações.

10. Garantir que as atividades e instituições econômicas em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma eqüitativa e sustentável.
a. Promover a distribuição eqüitativa da riqueza dentro das e entre as nações.
b. Incrementar os recursos intelectuais, financeiros, técnicos e sociais das nações em desenvolvimento e isentá-las de dívidas internacionais onerosas.
c. Garantir que todas as transações comerciais apóiem o uso de recursos sustentáveis, a proteção ambiental e normas trabalhistas progressistas.
d. Exigir que corporações multinacionais e organizações financeiras internacionais atuem com
transparência em benefício do bem comum e responsabilizá-las pelas conseqüências de suas
atividades.

11. Afirmar a igualdade e a eqüidade de gênero como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, assistência de saúde e às oportunidades econômicas.
a. Assegurar os direitos humanos das mulheres e das meninas e acabar com toda violência contra elas.
b. Promover a participação ativa das mulheres em todos os aspectos da vida econômica, política, civil, social e cultural como parceiras plenas e paritárias, tomadoras de decisão, líderes e beneficiárias.
c. Fortalecer as famílias e garantir a segurança e a educação amorosa de todos os membros da família.

12. Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social, capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, concedendo especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias.
a. Eliminar a discriminação em todas suas formas, como as baseadas em raça, cor, gênero, orientação sexual, religião, idioma e origem nacional, étnica ou social.
b. Afirmar o direito dos povos indígenas à sua espiritualidade, conhecimentos, terras e recursos, assim como às suas práticas relacionadas a formas sustentáveis de vida.
c. Honrar e apoiar os jovens das nossas comunidades, habilitando-os a cumprir seu papel essencial na criação de sociedades sustentáveis.
d. Proteger e restaurar lugares notáveis pelo significado cultural e espiritual.

IV.DEMOCRACIA, NÃO VIOLÊNCIA E PAZ


13. Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e proporcionar-lhes transparência e prestação de contas no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões, e acesso à justiça.
a. Defender o direito de todas as pessoas no sentido de receber informação clara e oportuna sobre assuntos ambientais e todos os planos de desenvolvimento e atividades que poderiam afetá-las ou nos quais tenham interesse.
b. Apoiar sociedades civis locais, regionais e globais e promover a participação significativa de todos os indivíduos e organizações na tomada de decisões.
c. Proteger os direitos à liberdade de opinião, de expressão, de assembléia pacífica, de associação e de oposição.
d. Instituir o acesso efetivo e eficiente a procedimentos administrativos e judiciais independentes, incluindo retificação e compensação por danos ambientais e pela ameaça de tais danos.
e. Eliminar a corrupção em todas as instituições públicas e privadas.
f. Fortalecer as comunidades locais, habilitando-as a cuidar dos seus próprios ambientes, e atribuir responsabilidades ambientais aos níveis governamentais onde possam ser cumpridas mais efetivamente.

14. Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável.
a. Oferecer a todos, especialmente a crianças e jovens, oportunidades educativas que lhes permitam contribuir ativamente para o desenvolvimento sustentável.
b. Promover a contribuição das artes e humanidades, assim como das ciências, na educação para sustentabilidade.
c. Intensificar o papel dos meios de comunicação de massa no sentido de aumentar a sensibilização para os desafios ecológicos e sociais.
d. Reconhecer a importância da educação moral e espiritual para uma subsistência sustentável.

15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração.
a. Impedir crueldades aos animais mantidos em sociedades humanas e protegê-los de sofrimentos.
b. Proteger animais selvagens de métodos de caça, armadilhas e pesca que causem sofrimento extremo, prolongado ou evitável.
c. Evitar ou eliminar ao máximo possível a captura ou destruição de espécies não visadas.

16. Promover uma cultura de tolerância, não violência e paz.
a. Estimular e apoiar o entendimento mútuo, a solidariedade e a cooperação entre todas as pessoas, dentro das e entre as nações.
b. Implementar estratégias amplas para prevenir conflitos violentos e usar a colaboração na resolução de problemas para manejar e resolver conflitos ambientais e outras disputas.
c. Desmilitarizar os sistemas de segurança nacional até chegar ao nível de uma postura não-provocativa da defesa e converter os recursos militares em propósitos pacíficos, incluindo restauração ecológica.
d. Eliminar armas nucleares, biológicas e tóxicas e outras armas de destruição em massa.
e. Assegurar que o uso do espaço orbital e cósmico mantenha a proteção ambiental e a paz.
f. Reconhecer que a paz é a plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com a totalidade maior da qual somos parte.

O CAMINHO ADIANTE
Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Tal renovação é a promessa dos princípios da Carta da Terra. Para cumprir esta promessa, temos que nos comprometer a adotar e promover os valores e objetivos da Carta.
Isto requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável aos níveis local, nacional, regional e global. Nossa diversidade cultural é uma herança preciosa, e diferentes culturas encontrarão suas próprias e distintas formas de realizar esta visão. Devemos aprofundar expandir o diálogo global gerado pela Carta da Terra, porque temos muito que aprender a partir da busca
iminente e conjunta por verdade e sabedoria.
A vida muitas vezes envolve tensões entre valores importantes. Isto pode significar escolhas difíceis. Porém, necessitamos encontrar caminhos para harmonizar a diversidade com a unidade, o exercício da liberdade com o bem comum, objetivos de curto prazo com metas de longo prazo. Todo indivíduo, família, organização e comunidade têm um papel vital a desempenhar. As artes, as ciências, as religiões, as instituições educativas, os meios de comunicação, as empresas, as organizações não-governamentais e os governos são todos chamados a oferecer uma liderança criativa. A parceria entre governo, sociedade civil e empresas é essencial para uma governabilidade efetiva.
Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir com suas obrigações respeitando os acordos internacionais existentes e apoiar a implementação dos princípios da Carta da Terra com um instrumento internacional legalmente unificador quanto ao ambiente e ao desenvolvimento.
Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação da luta pela justiça e pela paz, e a alegre celebração da vida.

A midia escondeu a verdade sobre Elinor Ostrom, Nobel de Economia

fonte: NovaE (21.10.2009)
Cristóvão Feil
23 de Outubro de 2009  
O chamado Prêmio Nobel de Economia de 2009 mereceu destaque parcial porque foi destinado a uma mulher
No entanto, mídia brasileira e mesmo a internacional não ressaltaram com a devida ênfase o objeto dos estudos da premiada, a professora Elinor Ostrom, da Universidade de Indiana (EUA).
O Prêmio Nobel de Economia, criado em 1969, foi concedido pela primeira vez a uma mulher. Elinor Ostrom, de 76 anos, doutora em ciência política e pesquisadora em gestão de recursos por comunidades. Ela dividiu o prêmio com Oliver Williamson, de 77 anos, professor da Universidade da Califórnia e doutor em economia. Ele estuda tomadas de decisão em empresas.
No ano da crise estrutural do capitalismo financeiro, o comitê de Estocolmo deixou de lado trabalhos focados em macroeconomia e em modelos abstratos.
Os vencedores desenvolveram pesquisas de campo que procuram compreender como as pessoas cooperam entre si fora dos mercados convencionais. Um dos fatores em comum entre os trabalhos é a questão da regulação.
Para o comitê do prêmio Nobel de Economia, que a rigor é instituído pelo Banco Central da Suécia (poucos sabem dessa importante condição), embora a teoria econômica tenha iluminado de forma abrangente as virtudes e as limitações dos mercados, tradicionalmente prestou menos atenção aos arranjos institucionais de iniciativa das comunidades interessadas.
O trabalho de Ostrom tem implicações em políticas ambientais e questões relacionadas ao aquecimento global. Seu trabalho derruba a tese de que, quando as comunidades administram recursos ou bens finitos, acabarão por destruí-los, e que o melhor seria uma regulação centralizada ou a privatização.
Com base em exemplos de gestão de áreas de floresta, suprimento de água e pastagens para animais no meio rural, Ostrom comprovou que a gestão comunitária pode ter resultados melhores do que o previsto pelo pensamento hegemônico.
Em entrevistas, a professora premiada comentou seu trabalho: "Desde que nós descobrimos que algumas vezes os burocratas não têm as informações corretas, enquanto cidadãos e usuários dos recursos têm, nós esperamos que isso ajude a encorajar um senso de capacidade e de poder" das comunidades organizadas.
Na prática, o trabalho de Ostrom indica que políticas públicas, principalmente ambientais, têm mais resultados quando são baseadas na colaboração entre as partes, e não na simples imposição de regras ou o cumprimento de critérios privatistas de gestão – conforme ficou consagrado nos últimos trinta anos de hegemonia cultural do neoliberalismo.
Em um trabalho de 2006, afirma que, quando os usuários estão engajados nas decisões referentes a regras que afetam a maneira como usam os recursos, a probabilidade de seguirem o que foi definido e monitorarem os outros é bem maior do que quando uma autoridade simplesmente impõe normas.

Agora é lei: alimentação é um direito

Consea celebra com parceiros 

por admin última modificação 12/02/2010 13:09
O Diário Oficial da União publicou nesta sexta-feira (5) a promulgação da emenda constitucional 64, que inclui a alimentação entre os direitos sociais, fixados no artigo 6º da Constituição Federal.
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) foi aprovada na quarta e promulgada pelo Congresso Nacional na quinta-feira (4), depois de duas vitoriosas votações na Câmara dos Deputados e duas no Senado Federal.
A campanha nacional pela inclusão da alimentação na Constituição foi liderada pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e teve a participação de entidades civis, movimentos sociais, órgãos públicos e privados, organizações não governamentais, artistas e cidadãos e cidadãs de todo o país.
O ator Marcos Winter, por exemplo, que foi conselheiro do Consea e que hoje faz parte do Movimento Humanos Direitos, enviou mensagem ao conselho celebrando a vitória da campanha. "As nobres e justas causas serão sempre nosso farol, parabéns a todos", escreveu ele.
Além de Marcos Winter, outros artistas participaram da campanha pela aprovação da PEC, como as atrizes Dira Paes, Bete Mendes, Maria Zilda, Camila Pitanga e Cristina Pereira e os atores Leonardo Vieira, Gilberto Miranda e Eduardo Tornaghi, além do cineasta José Padilha, diretor dos filmes Tropa de Elite e Garapa.

Outra personalidade que apoiou a campanha foi o escritor Ariano Suassuno, professor, dramaturgo, poeta, romancista e imortal da Academia Brasileira de Letras. Um abaixo assinado na página do Consea na Internet colheu mais de 50 mil assinaturas em quatro meses de campanha.
Fonte: http://www4.planalto.gov.br/consea/pec-alimentacao

“ …o que nós chamamos o poder do homem sobre a natureza, na verdade é o poder de alguns homens sobre outros homens… utilizando a natureza como seu instrumento”.
(LEWIS, 1970)